Maio 22, 2012


Maio 17, 2012


Se - Wislawa Szymborska

Se as coisas falassem -
…mas se falassem, também poderiam mentir.

Sobretudo as mais comuns e pouco apreciadas,
que finalmente conseguiriam chamar nossa atenção.

Dá pânico pensar
o que me diria teu botão descosido,

e a ti, o que diria a chave de minha porta,
essa velha mitômana 

3 notas
Leave Note / Reblog
Wislawa Szymborska poesia poema

Maio 15, 2012


José António Almeida - Ao anoitecer

Sou um velho rato celibatário
─ a lei não me permite casamento.

Outros encontram sem dificuldade
o universo pronto a vestir 

logo de manhã, desde que nasceram.
Depois trajam todas as convenções

─ que lhes assentam bem, do colarinho
às mangas, até parece que Deus

é um alfaiate por conta deles.
A nós, a melhor roupa fica mal

─ em nenhuma loja vendem sapatos
que nos deixem ir noutra direcção,

nem anel que não faça propaganda
à ordem sempre «natural» do mundo.

josé antónio almeida
rumo a poesia em 2009
assírio & alvim
2010

2 notas
Leave Note / Reblog
josé antónio almeida anoitecer literatura poesia poema

E era sobre um esgoto que se erguia algumas tábuas dispostas de modo a formar um cubo, onde residia um dos braços da moral cristã. Por sob estes, carregava aconchegado o livro doutrinário, na mão esquerda um anel vazio de sentido e no corpo o uniforme de prenúncio do escárnio. E foi lá de dentro que saiu uma dessas senhoras, trajada de discrição, saia longa e cores pastéis. Ousava ainda, e isso me enojou profundamente, a exibir por frestas escandalosas as patas inferiores aniquilando qualquer libido.

meus escritos

3 notas
Leave Note / Reblog
carne macia do coração

Maio 11, 2012


FLAUTA VÉRTEBRA - Maiakóvski

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História. 
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução:  Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

Leave Note / Reblog
Maiakóvski FLAUTA VÉRTEBRA poema literatura poesia Haroldo de Campos Boris Schnaiderman

Maio 8, 2012


Muito além de 1984

Não é do meu intento postar neste tumblr algo político, no entanto este é um texto que escrevi sob encomenda e não quero perdê-lo por conter informações preciosas - ainda que poucas.

A partir de setembro de 2001 houve uma exponencial proliferação de empresas especializadas em monitoramento sigiloso. Com a concorrência maior, entram em cena produtos cada vez mais invasivos sendo utilizados por governos na vigilância dos cidadãos, desde o monitoramento de e-mails a escuta de ligações telefônicas. Esta indústria secreta possui como clientes governos (ditadores e democráticos) do mundo inteiro.

A clássica obra ficcional de George Orwell, “1984”, tratava de um governo capaz de observar o cidadão pormenorizadamente em seu dia a dia, porém o acesso as informações pessoais se restringia aos órgãos governamentais. O que Orwell não pôde prever é que este monitoramento hoje se faz de forma terceirizada, o que permite o acesso a quaisquer tipos de dados por empresas que atuam em conjunto com o governo. Recentemente o site wikileaks disponibilizou um arquivo denominado “Spy files” onde consta uma lista de empresas e produtos sofisticados para monitoramento secreto dos cidadãos. O artigo começa com: “Interceptação em massa de populações inteiras não é apenas uma realidade, é uma nova indústria secreta abrangendo 25 países”. O wikileaks ainda disponibilizou um mapa detalhado, onde indica a localização, nome e área de atuação de empresas em todo o globo, bem como o site de cada uma e arquivos contendo o manual dos serviços prestados.

Projeto ECHELON

Foi confirmado pelo parlamento europeu em um relatório entregue no mês de julho de 2001, a existência de um sistema global de interceptação de comunicações privadas e econômicas. Este sistema consiste em vigiar constantemente toda a informação em circulação, não só pela internet, mas também por celular e outros meios de comunicação. O projeto existe em uma associação dos países EUA, Reino Unido, Austrália e Canadá. O relatório sobre este projeto pode ser conferido no site do parlamento europeu em português. Este sistema atua a nível mundial e goza de total liberdade por operar em um espaço sem lei, como é a internet. Este sistema não favorece apenas os governos envolvidos, mas também grandes empresas pertencentes a estes Estados. O sistema ECHELON inclusive já foi utilizado no Brasil. Em 1994, quando da contratação de uma empresa especializada para o projeto SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), concorreram diversas empresas, cuja vencedora foi a francesa Thomson-CSF. A CIA/NSA utilizou o ECHELON para espionar o processo. A partir do resultado das investigações, o então presidente dos EUA, Bill Clinton, formalizou queixa junto ao governo brasileiro denunciando toda a corrupção da contratação, acarretando a transferência do contrato para a empresa estadunidense Raytheon. É possível encontrar inúmeros outros exemplos no relatório europeu já mencionado.

Constante vigilância

Jeremy Bentham, filósofo jurista, desenvolveu já no século XVIII a ideia de prisão pan-óptica. Esta idéia consiste em um local onde os prisioneiros não seriam capazes de enxergar o vigilante, desta forma induz o indivíduo à consciência de constante vigilância. Não se faz mais necessário a dualidade ver/ser visto, pois se automatiza o indivíduo e desendividualiza-se o poder.

O Panóptico (…) deve ser compreendido como um modelo generalizável de funcionamento; uma maneira de definir as relações de poder com a vida quotidiana dos homens. Bentham sem dúvida o apresenta como uma instituição particular, bem fechada em si mesma. Muitas vezes se fez dele uma utopia do encarceramento perfeito.

Foucault, (1997), pág: 169

É polivalente em todas as suas aplicações: serve para emendar os prisioneiros, mas também para cuidar dos doentes, instruir os escolares, guardar os loucos, fiscalizar os operários, fazer trabalhar os mendigos e ociosos.

Foucault, (1997), pag: 170

Qual a razão para toda essa parafernália? Desconhecida a resposta, há a imposição de uma escolha: ignorá-la e permitir o monitoramento ou proteger sua privacidade e dificultar em muito a convivência em sociedade atual. Como? Abrindo mão de conta em banco, telefone, internet, cartões de crédito, viagens de avião entre outras comodidades da era moderna.

Referências:

 

5 notas
Leave Note / Reblog
1984 echelon george orwell internet privacidade vigilância carne macia do coração

Maio 7, 2012


Maio 4, 2012


René Char / Juventude

Longe da emboscada dos imprevistos

e da esmola dos calvários,

gerais-vos a vós próprias,

reféns dos pássaros,

fontes.

A queda do homem feita da agonia das suas cinzas,

do homem

que se debate com a sua vingativa providência,

não basta para vos desencantar.

Louvor, aceitámo-nos mutuamente.

“Se eu tivesse sido muda como a marcha da pedra,

fiel ao Sol,

que ignora a sua ferida cerzida de hera,

se eu tivesse sido criança como a árvore branca

que acolhe os pavores das abelhas,

se as colinas tivessem vivido o Verão,

se o relâmpago me tivesse aberto as suas grades,

se as tuas noites me tivessem perdoado…”

Olhar,

vergel de estrelas,

as giestas,

a solidão,

distinguem-se de vós!

O cântico pões cobro ao exílio.

A brisa dos cordeiros traz a vida nova.

René Char
furor e mistério
(grafia adaptada)
tradução margarida vale de gato
relógio de água
2000

4 notas
Leave Note / Reblog
rené char juventude poesia literatura